Segunda-feira

Dia de esboçar a vida. De tentar fazer melhor, não só no papel.

Monótona na visão de alguns, intensa ao olhar de outros. Para milhares, apenas mais um dia que chega.

Momento de ressaca. Pós-insônia. Rouquidão-silêncio-aridez. Palco onde repousam exageros.

Segunda de arrependimentos. Dores do corpo e, também, da alma… (ah, se eu tivesse dito-feito-falado-ficado um pouco além!)

Rupturas. Cortes. Promessas.

A partir de hoje, nunca mais… até segunda-feira que vem.

Habemus março…

Março sempre foi um dos mais aborrecidos meses do meu calendário. Ao longo desses quase trinta anos de existência, sinto que vivenciei uma quarta-feira de cinzas prolongada — como se o mês “pós-folia” abdicasse das purpurinas e lantejoulas… trazendo nubladas reticências em seu lugar.

Talvez por sempre ouvir dizer que o ano só começa depois do carnaval… acostumei pensamento e coração a deixar de lado as firmes metas traçadas em janeiro. Se ainda não deu certo, que tal em março? Afinal, o ano está “apenas” começando…

Com o passar do tempo… reparei que esse mês se tornou um grande abismo-inimigo-boicote em meu caminho. De promissor, passou a insignificante e, posteriormente, a uma época repleta de angústia.

Por que ser sempre aquele que fica para depois?

Por que ter somente a responsabilidade de recolher os cacos advindos do início do ano — besteiras impensadas, atos impulsivos… chegando ao ponto de precisar multiplicar cada um de seus trinta e um dias?

Hoje, dia dois do mês que — até pouco tempo atrás — simbolizava o caos… coloco-me aqui, silenciosamente diante da tela, junto à minha xícara de latte. Não tenho certeza se será melhor… nem mesmo sei se deixou de ser o que era antes.

Por ora, apenas observo o sol nascer sereno do outro lado da janela… enquanto desperto meus sonhos de março.

Rosa seca

A rosa guardada em meio às páginas de meu diário ainda fala muito sobre nós dois.

O diário é antigo e as pétalas estão naturalmente secas. Mas… há toda uma história ali que não secou.

Encontrei essas lembranças num dia qualquer… junto aos discos e livros, tão nossos.

Separei cartas-bilhetes-presentes-memórias… até me dar conta de que não há ninguém mais nessa trama.

Restaram as vivências. O bem-querer. Um brincar ou outro… como sinal de cumplicidade. Linhas repetidas até se esfacelar a mágoa.

E uma canção blasé para embalar a vida medíocre que escolhemos ter no espaço da nossa distância.

Cansaço

Dizem que uma noite de sono resolve. Um calmante, talvez… Se for de dia, ducha gelada. Red Bull. Café forte e ‘vambora’, que o tempo não para.

Nunca acreditei muito nisso. Nunca acreditei muito em nada que — segundo consta — eu deveria acreditar… Sigo sentindo cansaço. Vim para o mundo dotada de anestesia geral.

Em nenhum momento da vida lembro de ter me percebido ‘ligada nos 220’… até fiz um punhado de coisas em exagero, que outras pessoas comuns ao meu redor também fazem: conciliar trabalho e estudo, virar noites acordada para concluir um projeto, emendar finais de semana sem descanso… mas isso não justifica a fadiga extrema pela qual meu corpo é invariavelmente tomado.

Em determinado instante, preciso parar e morrer por segundos… minutos-horas-dias-meses- estações… em total paralisia! Cair num abismo aparentemente sem volta. Fugir do marasmo e do tédio, ainda que seja rumo à cegueira… ao branco total de ideias e sentimentalidades.

O cansaço que, às vezes, parece estar do lado de fora, é parte potente minha: tem meu nome e sobrenome… está inscrito no meu RG. Nunca esteve além de meus contornos. É inerente a esta voz que sangra excessos e costura cicatrizes… criatura meio-órfã, meio-mãe de mim.

Dia após dia — o cansaço e eu —, encaramos nossas próprias bifurcações, sem saber ao certo onde se findará essa esquete de co-predadores. Quem irá nos barrar? — nem mesmo sei se almejo um cenário diferente daquele que tanto nutri.

Sinto-me exaurida para prever qualquer possibilidade — talvez hei de fugir!

…antes mesmo de finalizar estas cansadas linhas…

Entre um rabisco e outro…

Rabisco um ensaio de céu com a ponta do giz que ainda sobrou de ontem… e as nuvens lá fora trazem um cinza em imensidão.

Ao avistar o cenário, sinto-me como uma epígrafe nesse mistério de páginas brancas… Reviro malas e encontro apenas o que ficou: o sempre que se tornou nunca.

É estranho navegar por entre os mares e, ao final, sentir que aportei no mesmo cais de antes. Cicatrizes na pele que denotam uma espécie de passado… mas um coração que sequer ousa o pensamento futuro.

Há quem me diga: viva o presente. Mas, que presente?…

E, nessa corda bamba de interrogações, busco não esmorecer… sobreviver — e me agarrar a um fio de esperança, que receio não ser forte o bastante para me manter aqui…

Noto que sou outra, mas o cheiro de terra molhada — parte e essência de mim — não se esvairá tão facilmente da pele… será preciso respirá-lo!

antes de ontem, antes de amanhã, antes de hoje, antes de mim… depois!

Apesar de sempre ter me considerado uma pessoa razoavelmente quieta-contida-introspecta, nunca pude chegar ao estado que alguns teóricos da Psicologia Cognitiva chamam de mindfulness — atenção plena: conscientizar-se do que se passa no próprio corpo, na mente, bem como nos pensamentos e emoções…

Por consequência, também não consegui meditar — mesmo tentando, em diferentes contextos. Pratiquei yoga… escutei música celta antes de abrir os olhos pela manhã… fiz uma pausa no meio da rotina de trabalho para silenciar o que vai dentro… tomei chá de camomila visando acalmar a respiração ao adormecer… mas, nada disso foi suficiente.

Esvaziar a mente parece ser — em meu contexto de vida — uma tarefa impossível. Talvez porque eu tenha me acostumado a focar no amanhã, apegada a esta soberba tamanha que não me possibilita sorver o hoje como ele se apresenta.

Sou sempre barulho… sinos tocando por todos os lados. Imensidão de causas falidas há tempos. Uma outra em balbúrdia, que se desdobra — sem motivo — para oferecer ao transeunte qualquer aquilo que nunca teve… nem terá.

Hoje se inicia a parte 2/12 de um ano que (eu disse a mim mesma) seria meu. Não sei bem o que houve com janeiro, mas sinto ter permanecido — quem sabe — naquele estado contínuo de não-meditação.

Não se muda de um dia para o outro, é fato… a bem da verdade, penso que muito pouco é modificado ao longo da vida at all, sobretudo quando se trata de essência.

Mas, fevereiro está aí para mais uma chance de mindfulness — com suas horas acopladas em dias e, definitivamente, algo a nos oferecer. Se será muito ou pouco, trata-se de uma escolha pessoal e intransferível.

31

Último dia do mês. 31. Ímpar.

Já passa das 16h e a inquietude no corpo-e-alma só cresce…

Aumento o som — que chega aos ouvidos através do fone — como maneira de abafar a voz interna que tanto me bagunça… e não me deixa digerir direito nem o que comi no almoço. Grita… Salta… Me massacra… e eu esbravejo alto. Pode até ser tarde… mas ainda estou aqui.

Revisito meus passos e desperto para aquela velha conclusão: meus movimentos são atônitos-cansados-intensamente-exaustos. Nasci quase morta… e foi como se, pouco a pouco, pudesse aprender o que era a vida.

De vez em quando, confesso que me esqueço de como caminhar — pé ante pé… num ritmo comum, como fazem as outras pessoas. Mas, sinto que estou sempre a correr ao redor de mim, rumo a um lugar outro que não sei.

E eis-me aqui, neste prenúncio de fevereiro… em uma tentativa de organizar ideias. Firmar projetos. Propor a mim mesma resoluções, mesmo que pequenas.

São quase 17h e este texto talvez esteja — quase — no fim… a nostalgia não nega a passagem do tempo. A escrita, de certo modo, também não.

O abismo que sou

O meu abismo existe-persiste-grita quando você me chama para dançar e eu recuso o convite. Ensaio. Titubeio. Tropeço, mas não desenlaço.

Dou-te a mão, mas não entrego o corpo… este corpo que nem meu é. À deriva das sensações, sigo na iminência de um passo adiante. Daquele “sim” que ficou no “talvez”.

Eu poderia, quem sabe, ter a ousadia de adentrar este caos borbulhante. Expurgar excessos. Ceder uma primeira vez, provando a meus próprios olhos que não queimarei as mãos por aceitar opostos.

Mas, o conforto de estar onde estou é tão conhecido que a dor se torna amiga comum-cotidiana-irrisória. Zombamos uma da outra, como se costumeiras fôssemos.

E sigo nesse estranho impasse entre dentro e fora. Luz e escuridão. Precisar muito ir, mas querer (?) tanto ficar… até o dia em que, penso eu, não haverá chão suficiente a esses viciados pés fincados ao nada.

Caminho e atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

Querida I.,

Enfim, é dezembro: passou-se mais da metade dele. Não da maneira como eu previa — já que quase nunca é assim — mas… como pôde ser.

Já reparou como as pessoas ficam imensas nessa época do ano? Chegam as festas e tudo se torna grande-exagerado-desproporcional… desde o tom de voz até a combinação vermelho-dourada, impossível de se ignorar. Tudo grita e parece se multiplicar.

Eu me canso em dobro… os movimentos são enfadonhos e há compromissos incompatíveis às minhas habilidades.

Nesses momentos, desejo me sentar junto a uma xícara de chá gelado. Ler aquele livro esquecido na estante e fazer uma ode ao silêncio.

Sei que o barulho permanecerá por longos dias, afinal… o homo sapiens adora saltar para fora de si mesmo.

Mas, depois de amanhã, será ano novo-velho-igual em suas diferenças. E eu estarei neste conhecido lugar, a encarar um céu de possibilidades que ainda não defini…

Bis dann!

T.

Pedras (não mais) em minhas mãos…

Atirei pela janela todas as pedras que guardava em minhas mãos — por que retê-las?

Não eram rosas. Nunca floresceriam… em momento algum, desabrochariam. Não agregavam qualquer possibilidade de transformação.

Descobri — nesse instante — que todo o potencial que enxergava nas pedras precisaria voltar à sua origem: a mim mesma… afinal, fui eu que ofereci qualquer espécie de vida imaginária a elas.

No entanto, pude também entender que esse processo de ruptura seria, necessariamente, diferente: pedras não morrem — em realidade, são apenas pedras… e só.

Aos punhados… me desfiz daquela parte dura que não me pertencia.

Libertei.
Expandi.
Deixei espaço para o que virá…