Escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta…

Eu costumava me deixar tocar pelas coisas à minha volta: nítidas, brilhantes, múltiplas, coloridas… e aquele universo contagiante parecia indissociável da minha própria alma.

Porém, as tonalidades foram, aos poucos, esmaecendo. Em vez de dar todos os meus passos no céu, pisei em solo firme… a vida me chamou a crescer.

E eu segui o meu caminho. Fui até a outra esquina para ver o que se passava… Encontrei minhas cicatrizes não mais em carne viva… pude tocá-las!

Escolhi os tons adequados ao meu momento: lilás, cinza, preto, laranja e vinho… uma mescla entre barulho e calmaria.

Após a tormenta, sou esta que (re)aprende a se emocionar com os detalhes da vida — novos e também antigos.

Sonho e realidade se encontram… na pausa entre silêncios.

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A leitura que faço de mim mesma…

…existo eu a querer fugir deste espaço de zumbidos e sons emaranhados. E, ainda que estas letras tivessem sido escritas dias atrás, talvez me mantivesse na mesma esfera de confusões e lapsos que perfundem a memória.

Eis-me naquela mantida posição de sombra… à revelia dos fatos meus. A favor do que é próximo, muito embora sem saber onde foi parar um viés qualquer de identidade que estava em minhas mãos…

As coisas permanecem em seus devidos-desordenados lugares: papéis empilhados, livros a se acumular, pendências a resolver… e eu, aqui, ensimesmando angústias — endurecendo rupturas… a deixar o hoje para amanhã.

Observo a escuridão do quarto e ela me traz certezas que inexistem na alma: pensei que a luz fosse capaz de clarear ideias, mas aprendi que ocorre, quase sempre, o contrário… necessito do breu para tocar meu eixo.

Preciso de solo firme para voltar a sonhar.

Missivas de Primavera | Sinto falta de mim, em mim…

Minha cara L.,

Olho para você e consigo fazer um raio-x da minha alma… sem filtros ou censuras. Muito mais transparente do que gostaria de enxergar.

Não tem sido rara a sensação de vazio aqui dentro. Um oco que incomoda, perfura o íntimo. Uma dor que parece querer que eu desperte à vida, mas — por outro lado — me anestesia.

Já não sei mais como me orientar ou o que fazer para abdicar desse marasmo… que nunca lembro de ter sido meu. E hoje sinto tão intrínseco à minha personalidade.

As palavras escritas e lidas…. os sonhos idealizados… os planos feitos. Tudo ficou para aquele amanhã que jamais chega.

E, sou apenas eu… aqui. Não sei onde nem o porquê. Tornei-me tão melancólica quanto aquilo que mais abomino.

Dizem que é comum nos equipararmos, em algum momento, às nossas sombras… mas eu apaguei quase por completo e desaprendi a movimentar as engrenagens da vida.

O que me dói é que, além de visualizar em sua figura todas as mudanças que eu gostaria de fazer — claras-límpidas-sem-amarras… é no silêncio entre nós que enxergo as reais vontades que restaram em mim.

Por elas, respiro… e vou, um pouco mais.

Bacio,

T.

Missivas de Primavera | Estou sozinha de olhos abertos para a escuridão…

Minha querida Y.,

Hoje é sábado… e o café da manhã se estendeu um pouco mais. Foi inevitável percorrer seus traços em minha memória enquanto observava o latte vaporizar na xícara.

Não esqueci sua combinação mais usual: café curto, sempre com uma dose de leite frio. Fico a imaginar se você ainda gosta assim… ou se a preferência é outra. Gosto de pensar que: “algumas coisas nunca mudam”…

Foi especial passar esses momentos em sua companhia… estava com saudade. Eu sempre sinto sua falta… mesmo quando não digo.

Muitas vezes, enxergo um enorme breu diante dos meus olhos… e a vontade que tenho é de me perder de mim. Sair correndo rumo a um canto qualquer, e gritar num sem-voz:

…a-c-a-b-o-u…

Mas, de alguma maneira, manter sua chama acesa-viva-latente ajuda o meu coração a se encontrar… mesmo que seja em uma simples xícara de café.

Te amo. Por uma vida inteira.

T.

Missivas de Primavera | As horas estão escritas num futuro impossível…

Tempo, tempo… vasto tempo!

Eu ainda me lembro — como se fosse hoje — dos dias de menina… aqueles em que passávamos longas tardes clichês na companhia um do outro.  O presente era tudo o que tínhamos… e o futuro era uma ideia para depois.

Havia expectativas: muitas… quando eu crescesse, seria doutora, psicóloga, professora. Você me dizia que nada disso era urgente — mas, de algum modo, “ser gente grande” não demorou a acontecer…

Eu olhava para você e enxergava uma fonte imensa de sonhos-possibilidades-mistérios. Coisas que eu não entendia e que minha ingenuidade fazia questão de macular.

Você foi meu parceiro, durante toda a juventude… e eu ainda sou a mesma menina que você conheceu — cheia de receios, ansiedades, impulsos… com uma diferença: descobri que o futuro é hoje.

Estou a me desintegrar… Amanhã, provavelmente serei outra, quando um eclipse tiver ocorrido em mim — alterando qualquer configuração de certeza…

Tudo o que sei é que, neste exato instante, preciso ir ali… transbordar.

Vem comigo?

Sua sempre aprendiz,

T.

Missivas de Primavera | Existe uma mesa com papéis, livros e uma lareira apagada…

Minha cara M.,

Eu queria te endereçar todas as missivas que escrevo… mas, antes, ser capaz de silenciar as lágrimas que escorrem no papel ao derramar estas palavras…

Não me sinto apta a conter a emoção — contigo, nem preciso —, portanto, simplesmente me debulho… encaixo-me em seu abraço e me permito ficar. Encurto distâncias. Finjo que você não se vai dentro de poucos dias…

Eu nunca lidei bem com a saudade, já comentei sobre isso em alguma de nossas poucas-longas-intensas conversas… não sou boa em me despedir, em ficar quando o outro parte, em ir embora se alguém fica. É como se o meu coração se quebrasse ao meio.

Há pouco tempo, precisei aprender a soletrar a palavra “sau-da-de” ao me soltar de suas mãos, que me embalam com tanto carinho-afeto-delicadeza… e, mais uma vez, virei refém de mim.

Se em algum momento me acostumarei a isso? Existe o dia seguinte… A espera pelo novo abraço, pelo reencontro, pela troca… por esse seu sorriso que me equilibra quando sinto que não vou cair em pé.

E a vida segue…

Um beijo carinhoso, de quem te olha sempre com ternura,

T.

Segunda-feira

Dia de esboçar a vida. De tentar fazer melhor, não só no papel.

Monótona na visão de alguns, intensa ao olhar de outros. Para milhares, apenas mais um dia que chega.

Momento de ressaca. Pós-insônia. Rouquidão-silêncio-aridez. Palco onde repousam exageros.

Segunda de arrependimentos. Dores do corpo e, também, da alma… (ah, se eu tivesse dito-feito-falado-ficado um pouco além!)

Rupturas. Cortes. Promessas.

A partir de hoje, nunca mais… até segunda-feira que vem.

Habemus março…

Março sempre foi um dos mais aborrecidos meses do meu calendário. Ao longo desses quase trinta anos de existência, sinto que vivenciei uma quarta-feira de cinzas prolongada — como se o mês “pós-folia” abdicasse das purpurinas e lantejoulas… trazendo nubladas reticências em seu lugar.

Talvez por sempre ouvir dizer que o ano só começa depois do carnaval… acostumei pensamento e coração a deixar de lado as firmes metas traçadas em janeiro. Se ainda não deu certo, que tal em março? Afinal, o ano está “apenas” começando…

Com o passar do tempo… reparei que esse mês se tornou um grande abismo-inimigo-boicote em meu caminho. De promissor, passou a insignificante e, posteriormente, a uma época repleta de angústia.

Por que ser sempre aquele que fica para depois?

Por que ter somente a responsabilidade de recolher os cacos advindos do início do ano — besteiras impensadas, atos impulsivos… chegando ao ponto de precisar multiplicar cada um de seus trinta e um dias?

Hoje, dia dois do mês que — até pouco tempo atrás — simbolizava o caos… coloco-me aqui, silenciosamente diante da tela, junto à minha xícara de latte. Não tenho certeza se será melhor… nem mesmo sei se deixou de ser o que era antes.

Por ora, apenas observo o sol nascer sereno do outro lado da janela… enquanto desperto meus sonhos de março.

Rosa seca

A rosa guardada em meio às páginas de meu diário ainda fala muito sobre nós dois.

O diário é antigo e as pétalas estão naturalmente secas. Mas… há toda uma história ali que não secou.

Encontrei essas lembranças num dia qualquer… junto aos discos e livros, tão nossos.

Separei cartas-bilhetes-presentes-memórias… até me dar conta de que não há ninguém mais nessa trama.

Restaram as vivências. O bem-querer. Um brincar ou outro… como sinal de cumplicidade. Linhas repetidas até se esfacelar a mágoa.

E uma canção blasé para embalar a vida medíocre que escolhemos ter no espaço da nossa distância.

Cansaço

Dizem que uma noite de sono resolve. Um calmante, talvez… Se for de dia, ducha gelada. Red Bull. Café forte e ‘vambora’, que o tempo não para.

Nunca acreditei muito nisso. Nunca acreditei muito em nada que — segundo consta — eu deveria acreditar… Sigo sentindo cansaço. Vim para o mundo dotada de anestesia geral.

Em nenhum momento da vida lembro de ter me percebido ‘ligada nos 220’… até fiz um punhado de coisas em exagero, que outras pessoas comuns ao meu redor também fazem: conciliar trabalho e estudo, virar noites acordada para concluir um projeto, emendar finais de semana sem descanso… mas isso não justifica a fadiga extrema pela qual meu corpo é invariavelmente tomado.

Em determinado instante, preciso parar e morrer por segundos… minutos-horas-dias-meses- estações… em total paralisia! Cair num abismo aparentemente sem volta. Fugir do marasmo e do tédio, ainda que seja rumo à cegueira… ao branco total de ideias e sentimentalidades.

O cansaço que, às vezes, parece estar do lado de fora, é parte potente minha: tem meu nome e sobrenome… está inscrito no meu RG. Nunca esteve além de meus contornos. É inerente a esta voz que sangra excessos e costura cicatrizes… criatura meio-órfã, meio-mãe de mim.

Dia após dia — o cansaço e eu —, encaramos nossas próprias bifurcações, sem saber ao certo onde se findará essa esquete de co-predadores. Quem irá nos barrar? — nem mesmo sei se almejo um cenário diferente daquele que tanto nutri.

Sinto-me exaurida para prever qualquer possibilidade — talvez hei de fugir!

…antes mesmo de finalizar estas cansadas linhas…